A Laguna de Aveiro

Já em textos de 1057 se faz referência às águas marítimas de Esgueira.

Era na altura a produção e o comércio do sal origem da riqueza desta região, então com o mar a banhar-lhe os pés.

Embora a Terra tenha dado muitas voltas desde então, não deixa de ser um “instante” na escala geológica, e mesmo à escala humana, aquele que medeia entre os dias de hoje e aquele em que Esgueira estava cercada de água e à sua volta se espraiavam águas do atlântico de então.

A alma desta terra é na realidade a sua água. A ria, como o Nilo, é quase uma divindade. Só ela gera e produz.
                                                                                                                      
Raúl Brandão, Os Pescadores

A Formação da Laguna de Aveiro

A laguna de Aveiro é normalmente designada por "Ria de Aveiro", mas incorrectamente uma vez se trata de uma lagoa com abertura para o mar. O termo Ria é utilizado para designar um esteiro ou grande rio.

A laguna tem um comprimento de cerca de 50 km e uma largura próxima dos 15 km.

Estende-se ao longo da costa desde Ovar até Mira.

Caracteriza-se por possuir uma densa rede de canais e ilhas. Os principais canais são os de Ovar, Murtosa, Vagos e Mira.

Na laguna de Aveiro desaguam vários rios e riachos dos quais o principal é o rio Vouga, que, antes da formação daquela, desaguavam directamente no mar.

Até há poucos milénios atrás, as águas do Atlântico banhariam as terras onde hoje se erguem Ovar, Estarreja, Aveiro, Ílhavo, Vagos e Mira. Existiria aqui uma enorme baía.

A partir do século X, (pelo menos são desta época os documentos históricos em que aparecem os primeiros registos do fenómeno), a acção do vento levou à formação de uma "língua" de areia a partir de Espinho em direcção ao Sul.

Em meados do século XVIII esse cordão dunar atingiu a zona de Mira completando-se a formação da laguna.

Foi também por acção do vento que a ligação entre a laguna e o mar conheceu várias localizações, ou, simplesmente, deixava de existir ficando então a laguna isolada do mar.

Nestas condições, a falta de renovação da água no interior da laguna levava a que ocorressem sérios problemas de saúde pública.

Foi para evitar esses problemas e garantir a navegação entre a laguna e o mar que em 1808 foi aberta a actual barra e fixada por acção de dois molhes.

Nos tempos actuais a laguna de Aveiro enfrenta o problema de assoreamento e de poluição que estão a levar à sua lenta agonia.

Origem da imagens da montagem:
http://www.prof2000.pt/users/hjco/ Aveirria/index.htm

Bois pastam na água, um barco navega no interior das terras. A ria é mágica e possui uma luz própria que a veste. in Os Pescadores, Raúl Brandão

A Produção de Sal

O sal já acompanha o homem desde longos tempos. Existem testemunhos datados de há cerca de 2000 anos A.C. O sal já foi uma importante mercadoria utilizada como moeda de troca.

Utilizado na alimentação e para outros fins, era na indústria do salgado que a sua utilização se fazia em maior quantidade. Com o advento da tecnologia do frio, o sal perdeu importância como meio de conservação dos alimentos.

Painel de azulejo na Estação da CP, Aveiro.

É no final do primeiro terço do século XX que começa a agonia da produção do sal na costa portuguesa.

À semelhança de outros locais ribeirinhos sob a influência das marés, existentes ao longo da costa portuguesa, Aveiro foi já um grande centro de produção de sal.

Aqui, como em outros locais, a diminuição da procura, aliada à concorrência do sal proveniente de outros países, levou ao desaparecimento das salinas. Umas estão ao abandono, outras foram transformadas em pisciculturas.

As imagens abaixo foram obtidas na Marinha da Troncalhada, local onde a Câmara Municipal de Aveiro criou um EcoMuseu.

Esta marinha, recuperada há alguns anos, situa-se perto do centro da cidade e faz parte do designado "grupo do Sul". As marinhas de Esgueira são, ou eram, as do "grupo Norte".

Local de visita obrigatória. Tem-se aqui a oportunidade de contactar directamente com as salinas e ficar a conhecer os pormenores da produção do sal.

A salina ou marinha é um espaço aberto, sujeito a variações de temperatura, humidade e ventos dominantes, circunscrito por um muro de torrão (terra argilosa dos sapais) e subdividido em "ordens". Destina-se a obter, por evaporação, o sal dissolvido na água.                                                              in Ecomoseu Marinha da Troncalhada.

Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal. Fernando Pessoa

A Apanha do Moliço

A agricultura, mercê da existência de terras férteis, também teve papel importante na evolução de Esgueira.

A prática da agricultura estava entrelaçada com a actividade na ria pela apanha de moliço, o qual era utilizado como fertilizante dos terrenos agrícolas.

O moliço é formado por plantas aquáticas, tipo algas, que se formam no leito submerso.

Painel de azulejo, TravessaTenente Resende,  Aveiro

Nos tempos que correm, a utilização dos adubos químicos a par das alterações socio-económicas, levou a que essa actividade tenha desaparecido e com ela a visão dos barcos moliceiros nos canais da Ria.

É em consequência da suspensão dessa actividade que os barcos moliceiros, ex-libris de Aveiro, quase tenham desaparecido, assim como os canais onde navegavam; estes devido (não só, mas também) ao assoreamento resultante da acumulação de matéria orgânica.

Este lindo barco serve para tudo. vaià à pesca e carrega o sal e o moliço pelas terras dentro. É o meio ideal de transporte entre estas terras ribeirinhas. Substitui os animais de carga, as diligências nas feiras e é o encanto da ria. Tem não sei de quê de ave e de composição de teatro. Anima a paisagem. in Os Pescadores, Raúl Brandão

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